No dia em que Feira de Santana celebra 192 anos de emancipação política, a cidade ganha um presente simbólico: o reconhecimento oficial do bairro Rua Nova como Bem Cultural e Imaterial, por meio da Lei nº 4.313, sancionada em 12 de agosto. A medida, proposta pelo vereador Galeguinho SPA (PSB), consagra o bairro como território de resistência afro-brasileira, berço de tradições, artistas e manifestações que moldam a identidade local.
Conhecida como o “coração negro da Princesa do Sertão”, Rua Nova surgiu no início do século XX, quando Ernestina Carneiro Ferreira de Almeida, a Dona Pomba, uma mulher negra de origem humilde, abriu suas terras para famílias em busca de moradia digna. Vendendo lotes a preços acessíveis ou permitindo pagamentos parcelados, Dona Pomba criou um refúgio para remanescentes da escravidão, fomentando uma comunidade unida pela solidariedade e pela luta contra o racismo.
Um Legado de Resistência e Cultura
O bairro, localizado no centro de Feira de Santana, preserva tradições ancestrais como o samba de roda, o candomblé e o reggae, influenciados pela forte presença afrodescendente. Figuras icônicas como Mestre Bule-Bule, poeta e repentista, e o cantor Lazzo Matumbi, expoente da música baiana, emergiram dali, contribuindo para a cena cultural da cidade. “Rua Nova é um símbolo de resistência, onde a cultura negra pulsa em cada esquina”, afirma o historiador local João Silva, em referência às festas tradicionais e aos terreiros de candomblé que marcam o bairro.
A lei reconhece não apenas o patrimônio histórico, mas também o imaterial: as práticas culturais, as festas religiosas e as expressões artísticas que resistem à modernização urbana. “Esse título valoriza os artistas do bairro, do afro ao reggae, e facilita o acesso a recursos para projetos culturais”, explica o vereador Galeguinho SPA, autor do projeto. Ele destaca a importância de preservar manifestações como os desfiles de samba-reggae na Micareta, única tradição do gênero no circuito oficial.
Desafios e Preservação
Apesar do reconhecimento, Rua Nova enfrenta desafios como a gentrificação e a perda de espaços tradicionais. Moradores como Maria Oliveira, descendente de Dona Pomba, cobram investimentos em infraestrutura e programas de valorização cultural. “É preciso proteger nossa herança para que as futuras gerações saibam de onde vêm”, diz Oliveira.
A sanção da lei coincide com o aniversário da cidade, reforçando a luta pela memória coletiva. Para o prefeito José Ronaldo de Carvalho, a medida “reafirma Feira como polo de diversidade cultural, honrando o legado negro que construiu nossa identidade”.
Com esse título, Rua Nova se junta a outros patrimônios imateriais da Bahia, garantindo sua preservação e fomentando o turismo cultural. No coração da Princesa do Sertão, o bairro continua a pulsar com a força de sua gente, celebrando a resistência afro-brasileira em meio aos 192 anos de Feira de Santana.








